"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente."
Segunda-feira, Outubro 26, 2009
T(r)emo
Quinta-feira, Outubro 22, 2009
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Manual de sobrevivência

Não penses demais... Respira fundo e deixa que todas as tuas preocupações saiam pelo teu nariz, pela tua boca. Pára! Não as engulas para dentro de ti novamente.
Não penses demais porque faz rugas e qualquer mulher que se preze quer manter-se jovem até ao dia do seu enterro.
Não penses demais porque dá dores de cabeça. A tua cabeça só consegue guardar um determinado número de pensamentos se não pode, acreditem que é verdade, já ouvi de um amigo de uma prima de um tio de uma cunhada que o ouviu da minha avó, sobreaquecer e, em casos raros, levar à autocombustão humana.
Não penses demais porque faz mal aos pulmões. Os pensamentos têm tendência a entrar enquanto respiramos, a concentrar-se nos pulmões e a ocupar todo o espaço que devia ser ocupado por ar. Isto, claro, pode originar asma, colapsos e, em casos extremos, até a morte por asfixia.
Não penses demais porque faz mal aos olhos. Se o mestre Alberto Caeiro o disse, "Pensar é estar doente dos olhos", então é porque é verdade. Nunca se deve questionar génios, ainda que sejam heterónimos de um génio e não pessoas por si só. Pessoas fictícias criadas por outras devem ser levadas ainda com maior seriedade porque, se não fossem verdadeiramente importantes, ninguém se teria dado ao trabalho de as inventar. Por outro lado, questionar fosse o que fosse seria, por si só, pensar demais.
Não penses demais! E se tens dúvidas se estás a pensar demais, ou de menos ou o normal, é porque estás a pensar demais. Se não tens dúvidas, é porque deves estar a pensar demais.
Pára! Não penses. Vai. O sol há de brilhar do outro lado e, mesmo que chova, podes sempre levar um guarda-chuva.
Imagem: "O Pensador" de Auguste Rodin.
Domingo, Outubro 04, 2009
A Cegueira Branca

E torno a deixar, muito lentamente, que este ar entre, por muito que a dor que volta e que nunca partiu me apanhe de surpresa e me aperte a garganta. Se eu não respirar, quem vai respirar por mim? Mas há veneno no ar. Cada vez é mais difícil inspirar. Eu tento, e tento tanto, mas vou ficando cada vez mais tonta, a minha visão turva. Há um túnel difuso que se estende à minha frente onde escolho entrar. Tudo é baço e a dor pulsa com vida nova. Já não é negro o que a dor irradia até me cercar. É a cegueira branca que me apanha. Branco. Só vejo o branco de toda uma memória do que podia ter sido mas que, rapidamente, se apaga. O ar aqui é rarefeito, já não cabe no meu peito. A memória do futuro que tinha escolhido avança a passos largos pelo túnel difuso e eu estou demasiado fraca para a alcançar, não consigo tão-pouco esticar o braço para a agarrar... Só o branco fica, a cegueira branca da dor que prospera. Deixo muito lentamente que o ar encha o meu peito mas alguém me devia ter dito que ele estava envenenado e que, tudo o que consegui engolir com tanto esforço, não foi mais do que o ver-me evaporar neste vazio baço do meu futuro que se perdeu.
Imagem: "Bathtub" de Brock Davis, http://itistheworldthatmadeyousmall.com.