Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Já não sei em que língua se escrevem as minhas letras... Misturo as palavras que nascem em mim e crio novos dialectos ainda não descobertos... Não sei que teclas os meus dedos conhecem, que frases são essas que eles escrevem... Se "a minha pátria é a língua portuguesa", estarei "despatriada"? Crio todos os dias uma nova pátria, uma nova língua, e ainda assim, não encontro nenhuma forma de explicar tudo aquilo que queria dizer, agora que estou tão perto do fim.

Sexta-feira, Dezembro 09, 2011

O último adeus


Tudo o que faço é dizer "Adeus" e ver partir tudo aquilo que sou, tudo o que que gostaria de ser. Todos os dias digo "Adeus" a uma parte diferente de mim... e vejo-a desaparecer lentamente, passo a passo, para nunca mais a encontrar. Os meus lábios secam das vezes que digo "Adeus"... "Adeus"... "Adeus"... "Adeus"... "Adeus"... e já não tenho força para acenar ao que lá vai em passo lento, em despedida... E espero... Espero que tudo volte, que nada mude, que tudo se transforme, que haja um mundo lá fora que não me diga "Adeus", ao qual eu não tenha de dizer "Adeus". Mas já nada mais em mim sobra que não despedidas... acenos, abraços, "Adeus"... e eu tão cansada de partir... tão exausta de ficar...


Imagem: "Le Petit Prince" de Antoine de Saint-Exupéry.

Terça-feira, Novembro 29, 2011


Sentes o pulsar do teu sangue até à ponta dos dedos dos pés e sabes, tens a certeza, que aquele grito prestes a soltar-se da tua garganta pode rasgá-la e deixar-te sem palavras para sempre. As tuas unhas cravam-se na parede imprimindo ruídos ensurdecedores que nem as pedras lá fora podem fingir não existir. E tudo o que queres é ter voz... Tudo o que querias era que alguém ouvisse... Mas nem o grito mais gutural que te rasga a garganta, nem as unhas a sangrar quando se cravam na parede, podem impedir todo o teu corpo de implodir antes mesmo de se fazer sentir.


Imagem: "The Scream" de Edvar Munch, 1893.

Terça-feira, Novembro 08, 2011


Adormecido, deixas-te ficar, quase desaparecido, quase uma sombra, quase um suspiro que nunca chegou a acontecer.

Adormecido, deixas-te ficar gelado, quase estático, escondido, talvez não desaparecido, talvez não uma sombra, apenas um espectro à espera do próximo sopro de calor que te acorde do teu sono lento, impenetrável, eterno.


Imagem: "Sleep" de Salvador Dali, 1937.

Segunda-feira, Outubro 24, 2011

There's no place like home


Onde estão os meus sapatos vermelhos? Onde posso encontrar os meus sapatos vermelhos para os calçar, bater com os calcanhares, suspirar "There's no place like home" e voar magicamente até casa? Onde perdi os meus sapatos vermelhos que me levariam até aos meus lençóis, de volta para o meu aconchego?

Ah... (Depressa me lembro.) Pois foi... (Relembro.) Eu nunca fui dona desses sapatos vermelhos...


Imagem: Red Shoes Bending Beauty.

Sexta-feira, Outubro 21, 2011

Alice no país das Maravilhas


Sonha que estás no país da Alice, o país das Maravilhas, em que o chapeleiro louco, como sabe que não gostas de chá, te dá um chocolate quente com bolachas para tomar. Sonha que cais na toca do coelho que tem um relógio que não dá horas na mão, porque diz que há todo o tempo de mundo para sonhar e viajar... para quê apressar? Sonha que uma lagarta sábia te dá todos os conselhos necessários para te durarem uma vida. Sonha que o gato risonho te sorri como nunca ninguém sorriu, e te ensina a sorrir. Sonha que a rainha de copas gosta da tua cabeça tal como está... no sítio em que está, sem cortes, e te oferece um baralho de cartas para jogar. Sonha que és a Alice no país das Maravilhas à tua escolha, só teu... Sonha que és a Alice, abre a porta da rua, e tenta continuar a sonhar, mesmo com o frio lá fora, os chapeleiros loucos no metro que querem o teu lugar, os coelhos apressados com horas na mão, as lagartas esguias em que tropeças no chão, os gatos pardos que se atravessam aos teus pés, e as rainhas de copas que cortam cabeças com requintes de malvadez. Sonha que és a Alice, e não tropeces no frio lá fora.


Imagem: Harper Collins - Alice's Adventures in Wonderland, Illustration by Camille Rose Garcia, 2010.

Mensagem sem título

O cursor pisca na expectativa de que ela descubra o que deve escrever.
...
As letras escrevem e apagam-se mil vezes porque embora as letras criem palavras e as palavras criem frases, não há qualquer sentido no alinhamento que os caracteres escolhem.
...
O cursor pisca, cansado, na esperança de que ela decida definitivamente qual é a mensagem desta... mensagem.
...
"Deseja enviar esta mensagem sem texto no corpo da mensagem?"
...
"Deseja enviar esta mensagem sem assunto?"
...
E a única coisa que ela foi capaz de deixar foi uma mensagem muda e sem título.