Terça-feira, Novembro 24, 2009


Desculpas para não escrever:

(não tenho tempo
não vale a pena
já tudo foi pensado
originalidade é utopia
ideias novas é ficção
já só há reciclagem
eu quero ser especial
nada pior do que ser "o normal"

dói-me a cabeça
torci um pé
os meus dedos estão perros
a minha cabeça congelou
os meus olhos já não olham
os meus ouvidos já não ouvem
a minha boca só boceja
já nada no meu corpo cumpre a sua função
e falta-me a inspiração)

Uma manobra evasiva para quem se esqueceu de como viver.


Imagem: "Spící" (Sleeping) de Toyen (Marie Čermínová), 1937.

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

O medo nas asas da libelinha


Vou chamar-lhe libelinha.
Quem é que consegue ter medo de uma libelinha?
E então, quando me perguntarem
"e o que é que ela tem?
já se sabe?",
responderei
"ah! tem uma libelinha..."
E assim,
tão simplesmente,
todo o pânico desaparecerá nas asas da libelinha
e, finalmente,
quase que conseguirei acreditar que
depois da chuva vem sempre o arco-íris
e que o Pai Natal ainda existe.


Imagem: "Lotus & Dragonfly" de Chi Pai Shih (Qi Baishi) em Asian-Antiques.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009


Toda a luz é sugada pela buraco negro e tudo acaba. Mais depressa do que um espirro. Mais depressa do que toda a velocidade que consigamos imaginar multiplicada por mil. Assim. De repente. Mais rápido do que um sopro e já nem o negro se vê. Sem reflexos da mais ínfima luz que se esconde já, sem um resquício de esperança para tudo o que o envolve, o buraco negro é tudo o que existe. Não é o nada. É a mais completa desolação do Universo onde não conseguiríamos caminhar, nem rastejar, nem mesmo às apalpadelas porque, uma vez caídos no buraco negro, desaparecemos para sempre. O buraco negro não tem fim, tem sempre fome e nunca deixa de mastigar tudo em seu redor. O buraco negro é meu, mora dentro de mim e só a mim me pertence. Não o partilho com ninguém. Este é só meu. É onde mergulhei e nunca mais ninguém me encontrou. O buraco negro não está em mim, é em mim e, vá eu para onde for, ele está sempre comigo, no peso do meu corpo nas minhas pernas, nos meus braços, no peso do meu mundo na minha cabeça. O buraco negro é meu, só meu, não o partilho com ninguém porque é uma segurança saber que ele é em mim. Não é o nada que existe em mim, é a mais perfeita destruição do cosmos que corre mais rápido do que a velocidade da luz para fugir da minha gravidade, para se lançar no infinito. É uma força matriz que faz o esforço activo de existir em mim todos os dias, a toda a hora. É muito mais do que o nada, é muito mais do que a escuridão, é o meu buraco negro. Agora, só preciso que lancem um mapa no meu buraco negro para que ele ganhe direcção.


Imagem: Tirada de http://antwrp.gsfc.nasa.gov/apod/lib/aptree.html.