quarta-feira, julho 28, 2010


Eu tenho um desejo!
É tão grande que mal cabe em mim.
Se eu fechar os olhos
e desejar com muita força
será que se torna realidade enfim?
Eu tenho um desejo
que já não cabe em mim,
que me fugiu.
E agora?
Quem o vai desejar por mim?


Imagem: "Magic" by Hanna L. em http://www.flickr.com/photos/hcolorblind

sábado, julho 24, 2010

Fora de Prazo

Ontem acordei com um travo amargo na boca
de qualquer coisa que se estragou.

Hoje acordei com um travo azedo na boca,
algo acre, antigo, que me despertou.

Quando os sonhos perdem o prazo de validade,
como é que os avisamos que o seu tempo expirou?

Quando os sonhos ultrapassam a hora aprazada,
quem é que os deita fora, onde, quando?...
E como é que sabemos que o sonho terminou,
que foi de vez, que não resta mais nada?
Como é que sabemos que o sonho não se reciclou
deixando a minha noite para sempre amarg(ur)ada?

terça-feira, julho 20, 2010

Perguntas ao tempo


O poema perguntou ao tempo
quanto tempo tinha para viver.
O tempo respondeu ao poema
que o poema já não vive há tanto tempo
quanto tempo deixou de se escrever.

A lágrima perguntou ao tempo
quanto tempo ainda havia de chorar.
O tempo respondeu à lágrima
que a lágrima choraria tanto tempo
quanto tempo ainda houvesse a respirar.

O coração perguntou ao tempo
quanto tempo até deixar de sentir.
O tempo respondeu ao coração
que o coração sentiria tanto tempo
quanto tempo ainda levasse a partir.

O poema desmantelou-se ali mesmo,
sem páginas onde viver,
sem dedos com que escrever.
A lágrima caiu,
uma seguindo a outra fluiu,
e sem parar, lágrima a lágrima tudo se repetiu.
O coração cansado, parou...
e poema, lágrima e tempo,
assim tudo se calou
e o tempo de perguntar ao tempo,
sem mais tempo, terminou.


Imagem: "Dali's London Time Warp" by Barbara Eggermann.

segunda-feira, julho 05, 2010


Os meus fantasmas vestem-se de "R"s e ressonam-me ruidosamente ao ouvido relembrando recordações que rilho, rumino, rosno ao rasgar da noite e ao raiar do dia.
Os meus fantasmas vestem-se de "R"s e roubam-me anos com rigor e requintes ritualistas repetidos que recuso mas que se renovam regularmente roendo sonos e sonhos.
Os meus fantasmas vestem-se de "R"s e rompem, rolham, renegam o meu futuro rouco que talvez não resista e se resigne a ruir.
Os meus fantasmas vestem-se de "R"s e recostam-se na recta final rindo da raia miúda que sou sem robustez para reconcertar os ruínas e recolher os restos para retomar o meu caminho.


Imagem: "R" por alex_skazat.