
Já quase não sobra nada da minha pele a que te possas agarrar ou que eu te possa dar. Desculpa! Esta camada de gelo que me engole lentamente o corpo há de me cobrir toda no frio anestesiante e eu já não vou sentir mais nada... mas tu vais continuar a sentir, tudo. Desculpa!
Se eu te parecer mais pálida, o meu olhar menos limpo, a pele mais baça, o meu sorriso mais rígido, é só do gelo em mim que me protege. Eu sempre preferi o frio. E o frio nunca me deixa, nunca me larga.
Quando eu desaparecer finalmente, toda eu engolida por mim gelada, não fiques triste, não por mim. Fui para um sítio melhor. O lugar sem memória, sem dor, sem mim e todo o fracasso de ser eu.
Eu venho do norte, filha do frio, e o bom filho à casa torna.
Imagem: Fotografia de Carlos Romão do blog A Cidade Surpreendente.