Quinta-feira, Maio 21, 2009


Explica-me porquê! Porque é que eu continuo a sentir o chão (com os meus pés, com as minhas pernas, com as minhas mãos, com a minha cara, com todo o meu corpo), se foi este o mesmo chão que levaste contigo quando saíste... Cair não devia doer tanto quando já não existe um chão.

Imagem: "Separation" de Edvard Munch.

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Parasita

Não mais do que o tamanho de uma pulga.
Não mais do que a coragem de uma pulga.
Não mais do que a força de uma pulga.
Não mais do que a vontade de uma pulga.

Sou o parasita da solidão
que a suga até ao tutano.

Não mais do que uma pulga
ou talvez menos ainda.

Sexta-feira, Maio 08, 2009

É só isto


Já hasteei a minha bandeirinha branca
desisto
rendo-me
façam de mim o que quiserem
levem-me
deixem-me ir
deixem-me ficar
porque se é isto
pequenas intermitências de quase sorrisos
seguidas de
tudo o resto
se é isto
(e é só isto!)
desisto
rendo-me
e deixo-me levar
deixo-me ir
deixo-me ficar
rapidamente
que se faz tarde
lentamente
que temos tempo
tanto faz.

Imagem:
Veio dum blog, Chelsea Boulevard, e, lamento, mas é tudo quanto sei.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Intervalo do Meu Mundo

inspirar bem fundo,
engolir todo o mundo
e deixá-lo ficar
até um dia
ser capaz de expirar.

Sábado, Maio 02, 2009

O poema que eu não escrevi

a
a
a
a
a
a
aa
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
a
(era bonito
era um raio de luz na mais completa desolação
era o silenciar dos gritos silenciosos
era tempo
era paz por todo o corpo
era uma noite estrelada
era feliz para sempre
era feliz agora
não num outro outrora
não num futuro que demora
era feliz
agora
seria)

Sexta-feira, Maio 01, 2009

Eu venho do norte, filha do frio


Já quase não sobra nada da minha pele a que te possas agarrar ou que eu te possa dar. Desculpa! Esta camada de gelo que me engole lentamente o corpo há de me cobrir toda no frio anestesiante e eu já não vou sentir mais nada... mas tu vais continuar a sentir, tudo. Desculpa!

Se eu te parecer mais pálida, o meu olhar menos limpo, a pele mais baça, o meu sorriso mais rígido, é só do gelo em mim que me protege. Eu sempre preferi o frio. E o frio nunca me deixa, nunca me larga.

Quando eu desaparecer finalmente, toda eu engolida por mim gelada, não fiques triste, não por mim. Fui para um sítio melhor. O lugar sem memória, sem dor, sem mim e todo o fracasso de ser eu.

Eu venho do norte, filha do frio, e o bom filho à casa torna.

Imagem:
Fotografia de Carlos Romão do blog A Cidade Surpreendente.