Sexta-feira, Julho 31, 2009


só preciso de um dedo
só um fio de cabelo
só um suspiro
só uma palavra
só um sussurro
só a minha voz de volta

tão só


Imagem: "Touching the Sky" de Zhaoming Wu.

Terça-feira, Julho 28, 2009

às vezes gosto de me reler
naquele espaço que fui
e de tentar perceber
se ainda é meu
aquilo que leio
que um dia fui eu.

Sexta-feira, Julho 24, 2009


Cada palavra que escrevo é uma centelha de mim que se perde para sempre no papel do esquecimento. Já são demasiadas as frases que escrevi e eu não sou mais do que escuridão que se agarra com unhas e lágrimas à memória.



Imagem: "Guardians of the Revolution" (Women of Allah series) de Shirin Neshat.

Domingo, Julho 19, 2009

A minha última palavra (certa)

Quando é que eu vou escrever a minha última palavra para ti? E eu saberei que é a última palavra que te escrevo no meu último sopro de escrita? Porque eu não sei qual foi a última palavra que te disse. Não sabia que seria a última, eu não entoei o ponto final, portanto não a guardei para mim. Se eu soubesse que era a última palavra minha que ouvirias, talvez não a tivesse dito; talvez tivesse demorado mais, muito mais, a pronunciá-la numa tentativa de evitar a finitude; talvez tivesse escolhido melhor a palavra para, pelo menos, quando isso já conta menos que nada, ser uma palavra bonita, a palavra certa, a última que ouvirias dos meus lábios.

Qual será a última palavra que te escreverei? Será que posso escolher? E se puder, se pudesse, qual escolheria? Qual é a minha última palavra certa? E eu saberei que é a última quando a escrever? E tu, saberás? Ou já leste a minha (tua) última palavra?

Sábado, Julho 11, 2009


Sinto-me tão frágil aqui no meio de tanto ar, tanta terra, tanto mar, tanta gente, tanto respirar, tanto suor, tanto lutar, tantas lágrimas, tantos risos, tanto ir e voltar. E eu aqui, pequenina, de pés fincados no chão a gritar até que alguém me ouça, a esbracejar até que alguém me veja...

E daqui não saio. Daqui ninguém me tira.


Imagem: "Fragile.." de kyLL no blog ir.kiamsiap|the mis-adventures of a colourblind artist.

Quarta-feira, Julho 08, 2009


Podia esquecer-te
(para sempre
ou pelo menos por agora,
por uns minutos que fossem
deixar-te de fora)
Podia perder-te
(algures num buraco bem fundo
onde não mais te encontrasse,
não mais me encontrasses)
Podia odiar-te
(nem que só um bocadinho,
nem que só por um segundo
para não me odiar a mim)
Podia culpar-te
(e todo o peso seria teu,
não meu,
e expulsaria tudo o que sei que és,
que foste)
Podia apagar-te
(fingir então que tudo foi nada
e que nada fugiu pela janela)
Podia...
E depois de tudo o que eu podia
(depois do nada)
o que é que sobrava?

Imagem: "Memoria" de Remo Bianchedi.