"Só o que sonhamos é o que verdadeiramente somos, porque o mais, por estar realizado, pertence ao mundo e a toda a gente."
sexta-feira, setembro 25, 2009
a minha voz não é mais do que um caroço na minha garganta
que se recusa a sair.
tudo se aperta como se já não houvesse espaço
porque tudo é demais já
e não cabe no pequena que sou.
espero que saibas que não me esqueci
que não ouviste as minhas palavras
não as leste
não tinhas prenda no teu correio
mas não me esqueci
nunca.
e este dia de silêncio auto-imposto
estilhaçou-me em mais pedaços do que os que consigo apanhar
do que os que consigo encontrar.
e daí... sentiste sequer a falta das minhas palavras?
ou não serei mais do que uma sombra distante
ou talvez já nem isso...
talvez agora não seja importante
talvez nem faça sentido
mas eu preciso de te dizer que eu não me esqueci
e o meu silêncio sufocou-me
mais do que algum dia te direi.
desculpa!
quinta-feira, setembro 24, 2009
Parabéns
Só porque hoje é o dia dos teus anos
confesso
(sem palavras
sem que me ouças
sem que te diga
porque já não há palavras
porque já não há silêncios entre nós
porque já não há nada
porque já não há nós)
que ainda és tu,
eu é que já não sou eu.
E não é que este eu
(que eu já não sou)
não consiga viver sem ti
(ou talvez seja exactamente isso).
É só que o mundo tinha outras cores
quando tu estavas comigo
e eu ainda era eu.
Só porque hoje é o dia dos teus anos
confesso
(no silêncio mais tumular que existe)
que o eu que eu já não sou
será sempre teu
e ainda és tu…
Sem os meus dedos nos teus dedos,
sem os meus lábios nos teus lábios,
sem o meu corpo no teu corpo,
sem os meus olhos nos teus olhos,
sem a minha voz na tua música,
hoje ainda é o dia dos teus anos?
E de quem é a voz no teu ouvido?
De que cor são os olhos que tu olhas?
Só porque hoje é o dia dos teus anos
(se ainda for o dia dos teus anos
mesmo quando eu já não sou eu
não para ti, não para mim)
isto é tudo quanto te posso dar,
um abraço
(sem braços já que te alcancem)
um beijo
(que tu já não recebes)
e o eu que eu já não sou
(já sem cores, a preto e branco).
Imagem: Do Filme "Byôsoku 5 senchimêtoru" de Makoto Shinkai.
segunda-feira, setembro 21, 2009

Que sorriso foi esse
que estranhaste nos meus lábios?
Todos os dias ponho um diferente
e ensaio um novo olhar.
Experimento os dedos das minhas mãos,
testo os dedos dos meus pés,
dobro os braços e as pernas.
Corto tudo o que já não serve.
Reinvento-me,
reencontro-me
e já não sou eu...
Mas aquele sorriso,
o tal que tu estranhaste,
esse,
esse, já é o meu!
Imagem: por Miguel Branco, 1997, www.miguelbranco.com.
terça-feira, setembro 15, 2009
olho bem fundo naquele abismo escuro
e
por momentos
deixo-me perder
no torvelinho que se forma
deixo-me cair
embalar
adormecer
hipnotizar
esquecer
descansar.
olho bem fundo naquele abismo escuro
e
por momentos
pergunto-me
o que será melhor?
o travo amargo na boca
o escaldar de tudo por dentro
o finalmente acordar
ou o ficar nesta leve sonolência
nem doce nem amarga
que me embala no torvelinho
daquela maré negra
e promete não mais me acordar?
olho bem fundo naquele abismo escuro
inspiro todo o ar
expiro tudo o que fui
preparo-me para o que vem
tapo o nariz
abro a boca
e
finalmente
sorvo o travo amargo do café.
Imagem: Poster do filme "Requiem for a Dream".
sexta-feira, setembro 11, 2009
E se...

E se estas noites forem sempre estas noites?
E se os dias cinzentos forem sempre os dias cinzentos (mesmo com sol)?
E se o meu estômago embrulhado em rebuçado estragado for sempre o meu estômago embrulhado em rebuçado (estragado)?
E se a única coisa que passa é o tempo que passa?
E se só os dias, as horas, os minutos, os segundos, só o tempo passa
mas estas noites duram?
Imagem: Times of Fantasy-33 por Aniu, 2002.
quarta-feira, setembro 09, 2009
Exercícios de Retórica
"Tens razão, é pelo melhor."
"Não faz mal, tudo passa."
"Está tudo bem..."
"Amanhã é outro dia."
"Está tudo bem."
"Já não me faz diferença."
"Está tudo bem!"
"Só quero que sejas muito feliz."
"Não, a sério, está tudo bem."
segunda-feira, setembro 07, 2009
Às vezes ainda sinto o travo amargo na minha boca
de te perder
e volto ao dia
à hora
ao minuto
ao segundo
em que percebi que eu já não era tua
tu já não eras meu
e o mundo já não era nosso.
É como ácido que me corrói
e que
por muito que o engula
que o empurre
que o ignore
volta sempre
para me queimar
para me lembrar
o que nós já fomos
o que já não somos.
Às vezes ainda sinto aquele travo amargo na minha boca
e quase que te sinto por momentos
daquela forma que não quero sentir
como se não tivesse valido a pena
como se não tivesse sido nada
quando fomos mais do que tudo.
quinta-feira, setembro 03, 2009
Não, não olhes para cima

quando já não houver mais nada a dizer
já não houver sussuros
já não houver gritos
já não houver palavras
já não houver saliva
já não houver silêncios
já não houver música
já não houver ar
já não houver força
já não houver corpo
já não houver braços que te segurem
já não houver mãos que te apertem
já não houver frio
já não houver calor
já não houver risos
já não houver lágrimas
já não houver tudo
já não houver nada
...
não, não olhes para cima
não vejas o quão imenso é o céu
como voam as amigas nuvens
como molha a chuva
como aquece o sol
como as estrelas brilham
como a lua se esconde
não, não olhes para cima
...
olha para baixo
sempre para baixo
e vê como está perto o chão
como os teus pés ainda caminham
como as tuas pernas ainda dançam
como o teu corpo ainda respira
como a tua boca ainda saboreia
como os teus olhos ainda vêem
como o teu cabelo ainda voa
como ainda há quem te segure a mão
cá em baixo
não lá longe, lá em cima
aqui mesmo, cá em baixo
à distância dos teus dedos.
Imagem: "O Fascínio" por Miguel Ministro.
quarta-feira, setembro 02, 2009

Fecha os olhos e imagina que ainda sou eu quem te segura a mão. Imagina que é minha a voz que ouves. Imagina que sou eu quem te sussurra ao ouvido. Imagina que é meu o cabelo na tua cara. Imagina que é o meu corpo. Imagina que são os meus lábios. Imagina que ainda sou eu.
Fecho os olhos e imagino que ainda sou eu.
Imagem: "Soñadores que Esperan" de Diego Dayer.